Revista Ilustrar #24

ilustrar24

Dia 1 é dia de Ilustrar! E setembro é aniversário da revista, completando quatro anos.

Quatro anos de muita ilustração, arte, entrevistas, descobertas, confidências, viagens, ilustradores, artistas e amigos. Quatro anos crescendo juntos, fazendo da vida algo mais alegre, inteligente e colorido.

Para comemorar os quatro anos temos nesta edição a presença de Ariel Fajtlowicz com seu divertido trabalho na seção Portfolio; Eduardo Belga com um trabalho belíssimo e sombrio na seção Sketchbook; Mike Deodato Jr., um dos mais importantes desenhistas da Marvel, mostrando como se prepara uma capa para o New Avengers; e Victor Leguy na seção 15 Perguntas, contando suas experiências, em especial depois que estudou com o professor escocês especializado em processos criativos, Charles Watson.

Temos também na seção Internacional o ilustrador repórter Matthew Cook, contando sua impressionante experiência nas guerras do Iraque, Afeganistão, além de viagens por diversos países e para fechar, a coluna de Renato Alarcão, falando com muito humor sobre os inúmeros encontros de ilustradores ocorrendo atualmente pelo Brasil.

Espero que gostem, e se possível divulguem a revista, só assim ela pode se manter gratuita. Nos encontramos novamente na edição de novembro.

Para fazer o download gratuito basta acessarem o site oficial

Grande abraço, Ricardo Antunes

Os Outros – Neil Gaiman

NeilGaiman

Falamos muito sobre arte que se vê e se ouve, mas pouco sobre arte que se lê. Terminando os 2 volumes da série “Coisas Frágeis” de Neil Gaiman li um conto e te digo: se fosse um quadro estaria na minha parede e se fosse música no meu mp3. Deslizo aqui nos direitos de reprodução por um motivo justo – incentivar a compra desses livros, que já estiveram juntos por R$19,90 na Submarino.

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Tradução de Michele de Aguiar Vartuli

“OS OUTROSâ€

- O tempo é fluido por aqui – disse o demônio.

Ele soube que era um demônio no momento em que o viu. Assim como soube que ali era o inferno. Não havia nada mais que um ou o outro pudessem ser.

A sala era comprida, e do outro lado o demônio o esperava ao lado de um braseiro fumegante. Uma grande variedade de objetos pendia das paredes cinzentas, cor de pedra, do tipo que não parecia sensato ou reconfortante inspecionar muito de perto. O pé-direito era baixo, e o chão, estranhamente diáfano.

- Chegue mais perto – ordenou o demônio, e ele se aproximou.

O demônio era esquelético e estava nu. Tinha cicatrizes profundas, que pareciam ser fruto de um açoite ocorrido num passado distante. Não tinha orelhas nem sexo. Os lábios eram finos e ascéticos, e os olhos eram condizentes com os de um demônio: haviam ido longe demais e visto mais do que deveriam. Sob aquele olhar, ele se sentia menos importante do que uma mosca.

- O que acontece agora? – ele perguntou.

- Agora – disse o demônio com uma voz que não demonstrava sofrimento nem deleite, somente uma horripilante e neutra resignação – você será torturado.

- Por quanto tempo?

O demônio balançou a cabeça e não respondeu. Ele percorreu lentamente a parede, examinando um a um os instrumentos ali pendurados. Na outra extremidade, perto da porta fechada, havia um açoite feito de arame farpado. O demônio o apanhou com uma de suas mãos de três dedos e o carregou com reverência até o outro lado da sala. Pôs as pontas de arame sobre o braseiro e observou enquanto se aqueciam.

- Isso é desumano.

- Sim.

As pontas do açoite ganharam um baço brilho alaranjado.

- No futuro, você vai sentir saudade desse momento.

- Você é um mentiroso.

- Não – respondeu o demônio. – A próxima parte é ainda pior – explicou pouco antes de descer o açoite.

As pontas do açoite atingiram nas costas do homem com um estalo e um chiado, rasgando as roupas caras. Elas queimavam, cortavam e estralhaçavam tudo o que tocavam. Não pela última vez naquele lugar, ele gritou.

Havia duzentos e onze instrumentos nas paredes da sala, e com o tempo, ele iria experimentar cada um deles.

Por fim, a Filha do Lazareno, que ele acabou conhecendo intimamente, foi limpa e recolocada na parede na duocentésima décima primeira posição. Nesse momento, por entre os lábios rachados, ele soluçou:

- E agora?

- Agora começa a dor de verdade – informou o demônio.

E começou mesmo.

Cada coisa que ele fizera que teria sido melhor não ter feito. Cada mentira que ele contara – a si mesmo ou aos outros. Cada pequena mágoa, e todas as grandes mágoas. Cada uma dessas coisas foi arrancada dele, detalhe por detalhe, centímetro por centímetro. O demônio descascava a crosta do esquecimento, tirava tudo até sobrar somente a verdade, e isso doía mais que qualquer outra coisa.

- Conte o que você pensou quando a viu indo embora – exigiu o demônio.

- Pensei que meu coração ia se partir.

- Não, não pensou – contestou o demônio, sem ódio. Dirigiu seu olhar sem expressão para o homem, que se viu forçado a desviar os olhos.

- Pensei: agora ela nunca vai ficar sabendo que eu dormia com a irmã dela.

O demônio desconstruiu a vida do homem, momento por momento, um instante medonho após o outro. Isso levou cem anos ou talvez mil – eles tinham todo o tempo do universo naquela sala cinzenta. Lá pelo final, ele percebeu queo demônio tinha razão. Aquilo era pior que a tortura física.

Mas acabou.

Só que, quando acabou, começou de novo. E com uma consciência de si mesmo que ele não tinha da primeira vez, o que de certa forma tornava tudo ainda pior.
Agora, enquanto falava, se odiava. Não havia mentiras nem evasivas, nem espaço para nada que não fosse dor e ressentimento.

Ele falava. Não chorava mais. E, quando terminou, mil anos depois, rezou para que o demônio fosse até a parede e pegasse a faca de escalpelar, ou o sufocador, ou a morsa.
- De novo – ordenou o demônio.

Ele começou a gritar. Gritou durante muito tempo.

- De novo – ordenou o demônio quando ele se calou, como se nada houvesse sido dito até então.

Era como descascar uma cebola. Dessa vez, ao repassar sua vida, ele aprendeu sobre as conseqüências. Percebeu os resultados das coisas que fizera; notou que estava cego quando tomou certas atitudes; tomou conhecimento das maneiras como inflingira mágoas ao mundo; dos danos que causara a pessoas que mais conhecera, encontrara ou vira. Foi a lição mais difícil até aquele momento.

- De novo – ordenou o demônio, mil anos depois.

Ele agachou no chão, ao lado do braseiro, balançando o corpo de leve, com os olhos fechados, e contou a história de sua vida, revivendo-a enquanto contava, do nascimento até a morte, sem mudar nada, sem omitir nada, enfrentando tudo. Abriu seu coração.

Quando acabou, ficou sentado ali, de olhos fechados, esperando que a voz dissesse: “de novoâ€. Porém, nada foi dito. Ele abriu os olhos.

Lentamente, ficou de pé. Estava sozinho.

Na outra ponta da sala havia uma porta, que, enquanto ele olhava, se abriu.

Um homem entrou. Havia terror em seu rosto, e também arrogância e orgulho. O homem, que usava roupas caras, deu alguns passos hesitantes pela sala e parou.

Ao ver o homem, ele entendeu.

- O tempo é fluido por aqui – disse ao recém-chegado.

Schell Sculpture Studio

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Avatar,  As Cronicas de Narnia: Principe Caspian, 300, Hellboy, Aliens vs. Predator – Requiem, Men in Black, The Mist, Batman Returns, Edward Mãos de Tesoura,  Alien: Resurrection, The X-Files Movie, Predador II, Babylon 5 são só alguns dos vários filmes que passaram pelas mãos do designer Jordu Schell e sua equipe no premiado Schell Sculpture Studio. A tarefa: design de personagens e criaturas. Eu faço longa reverência aos artistas que concretizam o que se passa na imaginação de escritores e roteiristas, trazendo esse mudo fantástico pro nosso real. Nesse caso o real é “mão na massa”, usando a arte da escultura como a etapa final na gênese de sonhos – ou pesadelos.

Uma seleção de 30 “superbes sculpures” do estúdio você confere no francês Le Blog de Bango.

Segue um pouco do trabalho desse pessoal.

Une vie de Chat

uneviedechat

Mais uma vez a França produz um longa metragem de animação que mostra algo mais que perseguição insana ao hiper realismo feita pelo cinema de animação americano. A animação Une vie de Chat (Um gato em Paris) foi apresentada ao público brasileiro no Festival Varilux de cinema francês pelo próprio realizador – Alain Gagnol, que também fez um estudo de caso do próprio filme para o programa de animação Cuba-Brasil e tive a honra de participar. Alain Gagnol é animador do estúdio Folimage, onde se formou desde aprendiz. Ele já fez 16 curtas metragem em 10 anos no estúdio e estréia seu primeiro longa metragem.
Ao longo de 3 anos Alain Gagnol desenvolveu um roteiro em parceria com seu colega diretor de arte Jean Loup que desenvolveu a direção artística dos personagens e cenários. Nestes 3 anos o roteiro sofreu alterações para conseguir financiamento (cerca de 4 milhões de euros), o roteiro inicial mais adulto ganhou uma roupagem mais lúdica sem subestimar o público infantil. A direção de arte buscou referências em nas histórias no quadrinho francês, na pintura (Matisse, Picasso, entre outros), no cinema o expressionismo alemão (Fritz Lang) e os filmes noir americanos.

Um-Gato-Em-Paris
A animação foi feita pelo processo tradicional com desenho no papel, mesa de luz e muita paciência ao longo de 3 anos de produção. Mesmo assim esse tempo é considerado relativamente curto considerando uma equipe de 12 animadores e 12 intervalistas. O fluxo de trabalho se deu da seguinte forma:
1. O storyboard foi produzido por Jean Loup e praticamente todos os desenhos foram aproveitados na animação, pode-se imaginar a qualidade desse storyboard;
2. Os cenários eram idealizados por Jean Loup e coloridos por computador para aprovação, assim que aprovados eram então pintados em pastel;
3. O line test era feito todo em papel e digitalizado para se definir a fluidez da animação;
4. O desenho então era pintado com guache eletrônica, cores chapadas com simples preenchimento de áreas em um software de pintura;
5. Um artista fazia a luz em pastel, quadro a quadro;
6. A composição fazia a interação do contorno, da guache eletrônica e da luz pastel e eram fotografados cada quadro 3 vezes para produzir o tremido característico do filme.

A sinopse do filme segue abaixo e é uma dica para quem aprecia animação e arte.
“Dino é um gato que divide sua vida entre duas casas. Durante o dia, ele vive com Zoé, a única filha de Jeanne, um capitão da polícia. Durante a noite, ele perambula sobre os telhados de Paris, na companhia de Nico, um ladrão muito habilidoso. Jeanne está no limite. Não só ela deve prender o ladrão responsável por roubos de diversas jóias, mas ela também tem que supervisionar a vigilância do Colosso de Nairobi, uma estátua gigante cobiçado pelo inimigo público número um, Victor Costa. O gangster também é responsável pela morte de um policial, o marido de Jeanne e pai de Zoé. Quando isso aconteceu, a menina se retirou em silêncio e não disse uma palavra. Eventos levam Zoé a encontrar com Victor Costa e sua gangue de surpresa. Uma perseguição acontece até o amanhecer e leva os personagens a cruzar caminhos, ajudar ou lutar entre si, por todo o caminho pelos telhados de Notre-Dame.â€

10 temas que fizeram (a minha) história

80-leandrosubst

Post light pra descontrair. Reuni 10 temas de abertura de séries que adorava e assistia nos anos 80 (mesmo algumas sendo mais antigas). Tão “ruins” que estão alimentando remakes e mais remakes por falta de criatividade de roteiristas. De filme então, nem falo. Sem ordem de preferência, aproveitem!

Battlestar Galactica

A-team

Ripley’s Believe it Or Not

Galaxy Rangers

Knight Rider

Automan

Shazam

Chips

Miami Vice

Spectreman